2.8.10

 
Fim das retencoes?



A ideia, lancada pela ministra da educacao, em consonancia com a sua antecessora, tem obviamente vantagens: reducao de custos, eliminacao de efeitos psicologicos negativos (novos colegas, estigmas, etc) e, eventualmente, reducao do insucesso e abandono escolar.

Por outro lado, ha problemas - embora estes infelizmente parecem ter sido ignorados pela ministra, pelo menos ate 'as reaccoes chegarem. O problema mais importante sera o efeito de incentivo para estudar e passar de ano - que deriva precisamente dos efeitos psicologicos da reprovacao que se querem minorar. A reprovacao pode ainda permitir um melhor encaixe entre as capacidades do aluno e o nivel de aprendizagem.

Alem disso, o efeito das reprovacoes no sucesso academico futuro dos alunos e' um tema sobre o qual ha poucas analises empiricas crediveis. Duas excepcoes, uma com dados dos EUA e outra com dados do Uruguai apontam em sentidos algo diferentes, embora com predominancia dos efeitos negativos (ie a retencao reduzir o desempenho escolar futuro).

As minhas analises (sem link por enquanto), baseadas em dados recentes de escolas portuguesas (cerca de 20.000 alunos de 80 escolas), indicam que alunos que sao reprovados nos 7o e 8o anos com 3 a 6 negativas tem uma probabilidade cerca de 30% mais baixa de reprovar o ano seguinte em comparacao com os seus colegas tambem com 3 a 6 negativas mas que nao sao reprovados nesse ano.

Isto e', mesmo que incompleto, ha um "catching up" dos reprovados em relacao aos seus colegas que transitam de ano: alguns dos que passaram mesmo tendo 3 a 6 negativas nao beneficiam de passar porque acabam por reprovar o ano seguinte.

(O facto de alunos com um numero semelhante de negativas poderem ser aprovados ou reprovados prende-se com a discricionaridade exercida pelos conselhos de turma. Por outro lado, na medida que os alunos que passam nestes casos serao em principio melhores alunos que os reprovados, o efeito das reprovacoes sobre o sucesso posterior referido acima estara subestimado.)

Finalmente, comparando aqueles alunos que passaram mesmo com 3 a 6 negativas com os seus colegas que passaram com 1 a 2 negativas, nao encontro diferencas significativas em termos das probabilidades de passar o ano seguinte. Isto e', a discricionaridade nas retencoes parece estar a ser bem exercida pelas escolas.

Em resumo, os resultados indicam que:

-um aluno que esteja a frequentar o mesmo ano pela segunda vez tem maior probabilidade de passar de ano que um aluno semelhante que esteja a frequentar um ano pela primeira vez; e

-um aluno que passe de ano "marginalmente" (beneficiando da discricionaridade do conselho de turma) tem a mesma probabilidade de passar o ano seguinte que um colega que tenha passado o ano anterior normalmente (sem discricionaridade).

Numa leitura parcial, estas estimativas apoiam o status quo ou, ate, eventualmente, um alargamento da discricionaridade para alunos com mais negativas.

No entanto, o que estes resultam infelizmente nao esclarecem e' em que medida os incentivos para aprender junto dos jovens saem enfraquecidos na sequencia da utilizacao da discricionaridade e, sobretudo, de um eventual alargamento do numero de negativas que ainda permitisse a passagem de ano.

Parece-me desnecessariamente arriscado reduzir as retencoes (para nao falar na sua extincao) sem antes compreender com mais clareza a interacao destes efeitos nas escolas.

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